De barcos de proa dupla a iguarias em alto mar: Xavelhas e o peixe-espada preto da Madeira

Mergulhe no mundo colorido das xavelhas de Câmara de Lobos e siga os pescadores locais enquanto eles caçam o esquivo peixe-espada preto com habilidade e engenhosidade consagradas pelo tempo.

Bom Saber

As inconfundíveis Xavelhas de Câmara de Lobos e a arte de pescar peixe-espada preta

Barcos coloridos com um legado de proa dupla

Quando os visitantes passeiam pela orla marítima da cidade piscatória de Câmara de Lobos na costa sudoeste da Madeira, suas câmeras geralmente permanecem nos barcos de madeira do porto. Estes não são artesanatos genéricos, mas xavelhas—barcos de pesca de tamanho médio com uma silhueta inconfundível. De acordo com o inventário do Museu Etnográfico da Madeira, as xavelhas têm uma característica distintiva casco oval e são construídos a partir de tábuas horizontais; no interior, nervuras semicirculares sustentam quatro peças transversais que servem como bancos. Ao contrário dos barcos a motor modernos, uma xavelha tem dois arcos (daí o apelido barco de duas proas ou “barco com duas proas”) e sem castelos dianteiros elevados. Esse design de ponta dupla, herdado de embarcações de pesca madeirenses mais antigas, permite que o barco seja transportado para praias íngremes de calhau primeiro na proa ou na popa, dependendo das condições do surf. Uma quilha central percorre todo o comprimento do casco e termina em uma pequena hélice, e duas vigas laterais revestidas com tiras de ferro fortalecem a estrutura. O registro do museu indica que a maioria das xavelhas são cerca de sete metros de comprimento—grande o suficiente para lidar com as ondas do Atlântico, mas pequeno o suficiente para uma tripulação de dois ou três pescadores. Eles são brilhantemente pintados com listras de vermelho, branco e amarelo ao longo da linha d'água, preto na pistola e interiores e remos azuis. Cada barco exibe uma combinação única de cores, ícones religiosos e nomes escolhidos pela família que o possui.

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As origens da xavelha estão ligadas aos primeiros dias da colonização da Madeira. Os colonos precisavam de uma embarcação robusta que pudesse navegar pelas costas rochosas expostas e ser puxada para a costa sem cais ou guindastes. Ao longo de séculos, os construtores de barcos desenvolveram o design de ponta dupla e o refinaram para se adequar às condições locais. No século XX, as xavelhas eram um bem essencial para as famílias em Câmara de Lobos. Durante a década de 1940, uma pequena comunidade até morava no “ilhéu”, a ilhota rochosa dentro do porto, e trabalhava em suas xavelhas. Barcos como o São João de Deus, construído em 1936, transportava tripulações para águas marítimas para pescar atum, peixe-espada e o enigmático peixe-espada preto. Posteriormente, o barco se aposentou da pesca comercial, apareceu na Expo de Lisboa de 1998 e agora oferece passeios históricos para visitantes. Os habitantes locais ainda se orgulham de suas xavelhas, tanto que a palavra também se tornou um apelido para pessoas de Câmara de Lobos. Uma escultura moderna chamada “Coroa do Ilhéu,” com a forma de uma xavelha estilizada, homenageia os pescadores que conquistaram seu sustento no Atlântico.

Peixe-espada preto: a iguaria do fundo do mar da Madeira

O peixe-espada preta (Aphanopus carbo) é um dos frutos do mar mais cobiçados da ilha. Ilhapeixe, uma cooperativa de pesca com sede na Madeira, observa que esta espécie vive 200—1.700 m abaixo da superfície no Atlântico leste e pode crescer até 145 cm longo. Tem um corpo negro alongado e iridescente com uma mandíbula inferior afiada e dentes longos em forma de presas. O peixe amadurece em torno de 85 cm e pode viver por três décadas. Como nenhuma escama protege sua pele elegante, a carne permanece delicada e branca. O peixe-espada é um predador, alimentando-se de crustáceos, cefalópodes e peixes menores e migra pela coluna d'água à noite.

Na Madeira, a espécie tem uma enorme importância cultural e económica. É responsável por aproximadamente metade do peixe vendido nos mercados da região, é a pedra angular da gastronomia de Câmara de Lobos e aparece nos cardápios como filés fritos com banana ou maracujá. O fundo do mar íngreme ao redor da ilha, que cai rapidamente nas profundezas abissais, faz da Madeira um dos poucos lugares onde o peixe-espada preto pode ser capturado em números consideráveis.

Preparando-se para uma noite no mar

Uma expedição de peixe-espada começa no final da tarde. Cada xavelha é carregada com palangre—linhas principais fortes com várias centenas de metros de comprimento, das quais pendem dezenas de linhas secundárias (conhecidas localmente como bandeiras) cada terminando em um anzol com isca. O guia de Ilhapeixe descreve a configuração: o palangre é mantido flutuante por flutua e mantido na profundidade necessária por pesos. Os pescadores de Câmara de Lobos costumam usar como isca os anzóis com pedaços de lula ou cavala, cujo aroma atrai peixe-espada das águas escuras. No passado, cada membro da tripulação remava usando um par de remos pesados; hoje, pequenos motores externos empurram a embarcação colorida para áreas de pesca a vários quilômetros da costa. As sondas de profundidade e o GPS modernos tornaram mais fácil encontrar as saliências subaquáticas íngremes por onde o peixe-espada sobe à noite, mas a técnica básica permanece inalterada.

Ao pôr do sol, o capitão alinha a xavelha com o vento e a corrente, depois começa a baixar os palangres. Os pesos conduzem a linha principal até a profundidade, geralmente até 800—1.600 m—enquanto os flutuadores garantem que os ganchos sejam suspensos horizontalmente em vez de serem arrastados no fundo do mar. Depois que toda a linha é implantada, às vezes com centenas de ganchos espaçados em intervalos regulares, a tripulação amarra a extremidade livre a uma bóia e a deixa encharcada. Porque os peixes-espada são batipelágico—vivendo perto do fundo do mar durante o dia e migrando para cima à noite— os pescadores esperam até o anoitecer para verificar as linhas. Enquanto isso, eles podem definir uma segunda ou terceira linha em uma área ligeiramente diferente, observando cuidadosamente as posições.

A viagem noturna

Por volta da meia-noite, lanternas balançam no mar Negro enquanto os xavelhas retornam às suas primeiras bóias. Os pescadores transportam os palangres manualmente ou com pequenos guinchos, tomando cuidado para evitar emaranhados. O primeiro indicador de sucesso geralmente é o corpo preto cintilante de um peixe-espada quebrando a superfície. Ao contrário da pesca de arrasto, que varre indiscriminadamente tudo em seu caminho, a pesca com palangre é seletiva: cada peixe é retirado de seu anzol individual e imediatamente despachado para minimizar o estresse. Quando a linha chega a bordo, a tripulação remove os anzóis sem isca e os recoloca para o próximo set. Se a captura for boa — talvez dezenas de peixes em uma única linha — o processo se repete com o equipamento restante. Os pescadores trabalham de forma rápida, mas metódica, em sintonia com o ritmo das ondas e o peso do equipamento.

O peixe-espada preto tem uma beleza assustadora quando transportado para dentro de um barco: sua pele iridescente brilha à luz da lanterna e suas longas mandíbulas se abrem para revelar dentes afiados como agulhas. Alguns dos peixes são colocados à venda imediata no mercado de peixe do Funchal; outros são eviscerados, congelados e armazenados a bordo. A carne estraga rapidamente, então o objetivo é retornar ao porto antes do amanhecer. Os cais de Câmara de Lobos e Funchal ganham vida quando os barcos chegam com suas cargas reluzentes. Compradores — donos de restaurantes locais e vendedores do mercado — se reúnem, avaliando o tamanho e o frescor de cada peixe-espada. As fotos da captura noturna geralmente mostram pescadores segurando peixes quase tão longos quanto eles mesmos, com outras espécies fazendo aparições ocasionais nos anzóis. Embora os palangres de peixe-espada possam capturar tubarões de profundidade e outras espécies, a porcentagem de captura acessória é baixa, e o monitoramento regular ajuda a garantir que a pesca permaneça sustentável.

A tradição encontra a sustentabilidade

A pesca de peixe-espada é mais do que apenas um trabalho; é uma prática cultural transmitida de geração em geração. Jovens pescadores aprendem a montar palangres, ler o clima e as correntes e manusear uma xavelha com parentes mais velhos. Em Câmara de Lobos, muitas famílias ainda dependem da pesca para obter renda, embora o turismo tenha se tornado um importante motor econômico. Como o método tem como alvo uma espécie específica e é monitorado pelas autoridades regionais, os cientistas o consideram relativamente sustentável. Cotas e fechamentos sazonais ajudam a proteger o estoque, e há poucas evidências de sobrepesca. Na verdade, as encostas subaquáticas íngremes ao redor da Madeira podem funcionar como um refúgio natural para a espécie, e a migração noturna dos peixes-espada para águas mais rasas os torna acessíveis sem equipamentos destrutivos.

Também há um sentimento de orgulho de que a pesca mantenha seu caráter artesanal. Ao contrário da pesca industrial em alto mar, que utiliza milhares de anzóis ao longo de dezenas de quilômetros, a frota madeirense de peixe-espada consiste em pequenos barcos, geralmente xavelhas, carregando apenas alguns palangres cada. De acordo com o blog de vida marinha da Lobosonda, a maioria dos barcos parte diariamente e a pesca de peixe-espada permanece central para as economias das comunidades costeiras. Os peixes são vendidos localmente, exportados ou servidos em pratos regionais, como espada com banana (peixe-espada frita com banana), espada com maracujá (com molho de maracujá) ou grelhado com alho e limão.

De burro de carga a ícone

Nas últimas décadas, o papel das xavelhas mudou lentamente. Os avanços na tecnologia introduziram embarcações maiores de fibra de vidro e navegação eletrônica na frota da Madeira. Alguns barcos tradicionais foram retirados, deixando o porto para visitantes e fotógrafos. No entanto, os habitantes locais não esqueceram sua herança. Uma xavelha, Jamanta, construído há quase um século, está sendo restaurado para exibição em um museu. Outros, como o São João de Deus, ainda navegam, não com palangres, mas com turistas ansiosos por experimentar o nascer do sol no Atlântico.

Câmara de Lobos abraçou o significado cultural de seus barcos de pesca. Artistas capturaram suas cores em murais e esculturas, enquanto os festivais celebram as xavelhas e o peixe-espada preto. Até Winston Churchill pintou o porto em 1950, imortalizando a visão de xavelhas balançando na enseada. Hoje, os barcos continuam a simbolizar a identidade da cidade. Eles lembram residentes e visitantes de uma época em que a vida dependia de tripulações corajosas que se aventuravam pela noite, contando com palangres e sorte para retirar das profundezas o delicado peixe-espada preto.

Um elenco final

A história da xavelha e do peixe-espada preta é uma história de adaptação. Feito com cuidado e pintado como arte popular, o xavelhas ajudou gerações de madeirenses a ganhar a vida do mar. Eles foram projetados para serem práticos — com duas pontas para facilitar o lançamento, reforçados com tiras de ferro para resistir às ondas, pintados com cores vivas para maior visibilidade — e se tornaram parte da paisagem de Câmara de Lobos. O peixe-espada preto, escondido nas profundezas escuras como breu, também se adaptou às íngremes falésias subaquáticas e às subidas noturnas da ilha, tornando-se uma iguaria que define a culinária local.

Na próxima vez que você saborear um prato de espada com banana Ou assista ao pôr do sol sobre Câmara de Lobos, pense nos pescadores que ainda colocam seus palangres em xavelhas coloridas. Num mundo de pesca industrial e navios-fábrica, a pesca de peixe-espada na Madeira continua a ser uma empresa de pequena escala onde a tradição e a sustentabilidade coexistem. Os barcos podem parecer brinquedos de madeira no porto, mas quando a noite cai e os predadores do fundo do mar se levantam, eles se tornam parte de uma dança antiga e contínua entre o homem e o mar.